Espaço reservado para as entrevistas na íntegra com os palestrantes e participantes do FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação.

Para a sua facilidade, a ordem das entrevistas é a seguinte:
Entrevista 1: Redes virtuais e suas influências – Henrique Antoun
Entrevista 2: Breve em vídeo – Ronaldo Lemos
Entrevista 3: Breve em vídeo – Vinícius Andrade
Entrevista 4: “O jornalista, cada vez mais, vai ser uma atividade especializada” – Elias Machado
Entrevista 5: O voluntário como protagonista – Bruno Ayres
Entrevista 6: Compartilhar o conhecimento para democratizar a comunicação – Flávio Gonçalves
Entrevista 7: “Sem liberdade , a vida pode ser um erro” – Anderson Goulart
Entrevista 8: Internet, cultura e revistência – Bárbara Szaniecki
Entrevista 9: Com vocês, Mr. Manson – Wagner Martins

Entrevista 1: Redes virtuais e suas influências
Entrevistado: Henrique Antoun
Entrevistadora: Katilaine Chagas
Editoras: Ariani Parpaiola, Lívia Cunha e Luísa Buzin

A internet se coloca como um espaço democrático de difusão de idéias. Em contrapartida, o número de usuários é limitado, representando cerca de 12% da população mundial. Como você analisa esse fato?
Esse fato é curioso. A internet é o primeiro meio de comunicação em que se coloca o problema do acesso a esse meio como um espaço vital. Na época do surgimento da TV, do cinema, por exemplo, não houve uma discussão sobre exclusão cinematográfica, exclusão televisiva. E quando eu vejo todo esse movimento de luta pela inclusão, o MIT, o Negropont, o Bill Gates, preocupados com a exclusão digital, fico imaginando que na verdade eles não querem que ninguém escape! Eles estão com medo que alguém não entre na rede.

Qual o impacto do ciberativismo, militância exercida em redes virtuais, sobre a política e os meios de comunicação?
Eu já fui mais otimista sobre o ciberativismo, achava que os hackers iriam resolver tudo. Hoje eu vejo o ciberativismo ser usado como argumento de polícia. Superinflacionam o poder de hacker, transformando-o em um crime de terrorismo. O ciberativismo é mais inflacionado por aquilo que ele pode fazer do que por aquilo que ele realmente faz. Por outro lado, se nós não tivéssimos toda essa experiência do “hackerismo” nas redes nós certamente estaríamos vivendo uma outra experiência de internet, uma experiência muito mais fechada, mais proprietária e coesa.

E diante do poder da internet qual a reação dos meios de comunicação?
De ódio, de completo ódio. Jornais odeiam a internet, a televisão odeia a internet, porque ela torna barata ou gratuita aquilo que as outras cobram muito caro para fazer. Antes da internet você não podia fazer nada sem eles, não podia entrar em contato com o mundo, não podia divulgar seu trabalho sem que se tornasse muito caro fazer isso. E a internet possibilita isso quase de graça. Na política, não é preciso pagar pra fazer campanha. A internet já te dá esse espaço.

Qual é o grau de influência das redes virtuais sobre o indivíduo e sobre suas relações sociais?

É uma coisa que ainda está para ser medida. Têm-se aferições muito contraditórias sobre isso. Um dos grupos mais interessantes que faz pesquisas há mais de dez anos nessa área é PEW, que faz pesquisas sistemáticas na internet sobre comunidades virtuais, sobre as produções de internet, tratando a internet como uma mídia de massa no sentido de fazer pesquisa de opinião. E a opinião dele é que a internet é pior que a mídia de massas porque é mais conservadora ainda. Na internet o sujeito se fecha e recebe aquilo que ele quer; nas mídias de massa ele recebe mesmo aquilo que não lhes interessava. Considero o PEW conservador nesse empirismo, porque ele não vê outras coisas que estão sendo produzidas naquele fechamento.

Qual sua opinião sobre a centralização do controle da internet? A quem interessa essa centralização?
É uma tentativa de reverter ao que Jaques Valente chamou de uma grande plataforma de distribuição tornar a internet descentrada do usuário, já existem aí os epígonos que querem provar por a mais b que essa internet centrada no usuário é um golpe de uma aristocracia semiótica contra grande massa e que bom seria ela ser como uma indústria de massa, todos cheios de softwares proprietários, em que você já paga todos os direitos na hora do provedor e que você não pode fazer nada que não seja autorizado pelo computador central, mas essa reversão é quase que impossível. Eles correm o risco de fazer uma internet que não tenha mais ninguém, somente os donos, o que seria uma internet inútil.

E sobre a palestra de hoje, conseguiu falar tudo?
Ninguém fala tudo! Graças a Deus a gente sempre guarda um pouquinho para falar no dia seguinte. Mas a palestra foi ótima, adorei estar aqui, adorei o interesse de vocês, o carinho com que vocês receberam a gente e espero vir mais vezes.

Entrevista 2:
Breve – Em Vídeo
Entrevistado: Ronaldo Lemos
Entrevistadora: Katilaine Chagas

Entrevista 3: Breve – Em Vídeo
Entrevistado: Vinicius Andrade
Entrevistadoras: Lívia Cunha e Helen Lemos

Entrevista 4: “O jornalista, cada vez mais, vai ser uma atividade especializada”
Entrevistado: Elias Machado
Entrevistador: João Paulo Pereira
Editoras: Ariani Parpaiola, Lívia Cunha e Luísa Buzin

O palestrante do FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação do terceiro dia, 25 de outubro, foi o professor doutor da UFSC, Elias Machado. Mestre e doutor em jornalismo pela Universidad Autónoma de Barcelona, na Espanha, Machado é presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPjor) e faz do jornalismo digital uma de suas áreas de atuação.

A palestra teve como tema “Crise ou Mutação? Os efeitos da web na produção jornalística”. E, durante o evento, Machado disse que o melhor jornalista é aquele que oferece ao seu público informações de qualidade dentro das possibilidades técnicas existentes, sejam elas boas ou ruins.

O que o motivou a fazer do jornalismo on-line uma de suas áreas de atuação?
Eu queria tratar esse novo espaço de forma acadêmica. Não aceitava o que o senso comum dizia, ou seja, que o jornalismo iria acabar, que qualquer um poderia ser jornalista. A minha intuição me levava a perceber que essa não deveria ser a compreensão. Contudo, eu somente poderia contradizê-la de forma qualificada, elaborando pesquisas e me dedicando sistematicamente ao tema. Assim, seria possível construir conhecimentos sobre essa nova área. Acabei contribuindo com os meus estudo e, hoje, a maioria das faculdades brasileiras tem no jornalismo digital uma área de reflexão.

Qual foi a maior inovação trazida por esse novo tipo de jornalismo?
A maior inovação está no estabelecimento de uma nova maneira de apuração, produção e divulgação de informações no ciberespaço.

A atividade jornalística feita na internet acabará substituindo integralmente o jornalismo impresso?
Não se deve fazer “futurologias”. Se vai acabar ou não o jornalismo impresso eu não sei. Existe a possibilidade de que novas formas tecnológicas descartem as anteriores, como aconteceu com o cinerjornalismo. Mas são apenas possibilidades.

Como você avalia o futuro do webjornalismo? Será uma atividade feita por comunicadores ou será um trabalho colaborativo, estruturado no trabalho do cidadão comum?
Não tenho dúvidas de que o jornalismo, cada vez mais, vai ser uma atividade especializada. O diferencial do jornalismo praticado no ciberespaço é que o trabalho especializado, acaba por incorporar o cidadão comum em algumas das etapas de produção de conteúdo. Todavia, é preciso que se entenda que o cidadão comum não faz jornalismo porque a atividade exige um conhecimento altamente especializado e que pressupõe o domínio de técnicas e princípios somente adquiridas com uma formação acadêmica.

O que se espera dos novos profissionais?
O que o cidadão comum espera: que tenham capacidade em entender as diferenças existentes na sociedade e, baseado nelas, produzir conteúdos com a máxima qualidade, de acordo com as possibilidades existentes em cada local de trabalho. O melhor jornalista não é aquele que atua onde existe grande disponibilidade de tecnologia, mas aquele que elabora bons trabalhos dentro da sua realidade produtiva.

Em que aspecto, você acredita que o webjornalsimo ainda precisa melhorar? Em que nível está o Brasil?
A principal atitude é a de desenvolver mecanismos de apuração aperfeiçoados. O google não serve para o jornalista, pois é um sistema muito genérico e muito burro. O jornalista de áreas como esportes, economia ou política deveria contar com instrumentos refinados de busca. Isso permitiria produzir conteúdos rapidamente e de qualidade. Isso não existe, mas deve ser feito. O grande desafio, então, é produzir tecnologia que possibilite o aperfeiçoamento do trabalho. Mas isso não é o bastante, é preciso formar bons profissionais. O webjornalismo, assim como o jornalismo em geral, desenvolvido nacionalmente está entre os melhores do mundo. Justamente por ser um dos primeiros países do mundo a contar com uma formação acadêmica. Cerca de 90% dos jornalistas brasileiros possuem formação superior em jornalismo, nos Estados Unidos esse número está entre 10%.

Entrevista 5: O voluntário como protagonista
Entrevistado: Bruno Ayres
Entrevistador: Mykon Figueiredo
Editoras: Ariani Parpaiola, Lívia Cunha e Luísa Buzin

Mestrado em ciência da informação pela Escola de Comunicação da UFRJ, Bruno Ayres é atual coordenador do Portal do Voluntário que atua no mercado produzindo tecnologias de redes sociais.

Após a ministrar uma palestra na noite do terceiro dia do FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação, Ayres concedeu a seguinte entrevista ao Em Foco.

O que é o Portal do Voluntário?
O Portal do Voluntário é uma rede social de voluntários que acredita no poder de cada pessoa em mobilizar sua vizinhança, sua rede social, para realizar ações por conta própria, sem esperar por ninguém. Com essa idéia conseguimos quebrar alguns estigmas, “tirar o voluntário do altar” e coloca-lo na vida cotidiana. O voluntário faz porque também é bom pra ele, e não porque é “bonzinho”. Assim, tivemos alguns avanços na discussão do voluntariado.

Quais os desafios desse trabalho?
O grande desafio, agora, é colocar mais ferramentas para que as pessoas controlem melhor o sistema de reputação dos voluntários e dar mecanismos para que os gerentes das redes de voluntariado distribuam o controle que têm para maior eficiência do Portal .

Como as pessoas que trabalham com mídia colaborativa sobrevivem? É difícil conseguir patrocínio e apoio?
Apesar de trabalhar com mídia colaborativa e voluntariado, sou remunerado. Comecei como voluntário e isso me tirou da vida empresarial e me colocou no terceiro setor, de ação social. Encontrei forma de sustentabilidade nas empresas que compram a tecnologia desenvolvida pelo Portal. Para voluntários e ONG’s, a tecnologia é distribuída gratuitamente. Uma das tecnologias é o V2V, uma rede social criada pelo Portal do Voluntário, que reúne voluntários de acordo com suas afinidades e disposição para agir. Nesta rede, o voluntário é o protagonista, o agente da ação, seja esta realizada dentro ou fora de um ambiente institucional. Esse é o modelo que eu encontrei, porém há muita coisa que pode ser feita.
Para quem deseja trabalhar com esses assuntos eu acho que deve juntar um grupo de amigos, no início sem remuneração, e procurar fazer um trabalho que dê satisfação pessoal e seja de interesse comum entre eles. Depois, é tentar ver como pode ser transformado em produto e levado às pessoas e como é possível ganhar sustentabilidade com isso.

Os internautas serão os produtores de informações da internet num futuro?
Sempre vai ter participação de jornalistas e internautas. Os blogs são bons, as participações estão sendo democráticas, o webjornalismo é participativo e funciona. Mas quem denuncia o escândalo é o jornalista investigativo. Eu acho que haverá espaço para conteúdos formais, mais institucionais, e espaço para informações mais pessoais.
Uma pequena fração da população mundial tem acesso à internet. Quando a multidão se conectar haverá uma quantidade maior de conteúdos não-formais.

Como você vê o possível controle de informações veiculadas na internet?
Existe um movimento que quer controlar e outro que quer a liberdade e transparência na internet. A transparência traz benefícios muito maiores do que o controle. Então eu opto sempre por ela. Nem todos os conteúdos que estão na internet interessam a muita gente. Não dá pra lidar com toda essa massa de dados. As formas de controle, por mais que queiram controlar as informações, nunca serão eficientes o bastante. Haverá sempre maneiras de tapeá-las.

Entrevista 6: Compartilhar o conhecimento para democratizar a comunicação
Entrevistado: Flávio Gonçalves
Entrevistador: Bruno Lovatti
Editoras: Ariani Parpaiola e Lívia Cunha
“Queremos um debate democrático na comunicação”. O desejo não é só de Flávio Gonçalves, jornalista formado pela UFES e integrante do Intervozes, Coletivo Brasil de Comunicação. Flávio foi um dos debatedores da manhã do quarto dia do FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação e abriu a discussão sobre a democratização da comunicação por meio de alternativas colaborativas, como o movimento do software livre.

O software livre pode ser considerado uma alternativa contra-hegemônica?
Com certeza. A filosofia do software livre, que é de trabalhar o compartilhamento do conhecimento, é contrária à lógica atual dominante, no qual o conhecimento é uma mercadoria. O software livre é produzido, disponibilizado todo seu método de construção, para que qualquer pessoa melhorá-lo – de forma gratuita, pela Internet.

Atualmente, a mercadoria está estruturada de forma que a informação é vendida, ao contrário do software livre, que apesar de não ser necessariamente gratuito, vai contra essa ideologia de que toda informação deve ser comercializada. Hoje, grande parte da sociedade mundial está criando sistemas que façam com que o software e qualquer informação, do ponto de vista legal, jurídico, tenha uma função social e seja compartilhada de forma colaborativa, fazendo com que o direito autoral seja superior ao direito coletivo.

Qual a relação entre o movimento do software livre e a democratização da comunicação?
Existe uma estrutura física que não permite que todas as vozes e idéias presentes na sociedade sejam comunicadas de forma democrática, ou seja, existem poucas emissoras de rádio e televisão que discutem o papel fundamental do que as pessoas no cotidiano estão pensando. Queremos um debate democrático na comunicação, e não que as pessoas que tenham a estrutura da comunicação falem o que bem entendem e as pessoas que discordam não têm espaço para falar.

A inclusão digital e o software livre contribuirão porque a Internet é um espaço muito mais democrático do que as emissoras de rádio e televisão. O problema é que a maior parte da população brasileira não tem acesso à Internet, então, deve-se democratizar o acesso ao computador e à Internet e, a partir disso, construir formas de comunicação que levem outras informações que não estão disponibilizados nas emissoras de rádio e tv que, obviamente, contribuem para a construção de uma hegemonia e ideologia capitalista, individualista e competitiva. Precisamos construir a saída de forma coletiva para alterar nossa atual sociedade.

Entrevista 7: “Sem liberdade, a vida pode ser um erro”
Entrevistado: Anderson Goulart
Entrevistador: Bruno Lovatti
Editoras: Ariani Parpaiola e Lívia Cunha

Anderson Goulart, programador e desenvolvedor de softwares livres, esteve no FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação para debater o tema “Democratização, Liberdade e Tecnologia Digital”. Para Goulart, o software livre tem vantagens incomparáveis comparado ao proprietário. Além disso, há algo que somente o software livre pode oferecer: liberdade.

Goulart é graduado em Ciência da Computação pela UFMG, coordenador do Encontro Mineiro de Software Livre (EMSL) e apoiador do Projeto Casa Brasil de Inclusão Digital.

Quais as vantagens do Software livre em relação ao privado?
O software livre possui vantagem tecnológica, tendo um desenvolvimento superior ao do software privado ou proprietário, porque várias pessoas do mundo contribuem ao mesmo tempo e não apenas um grupo de uma certa empresa. Além disso, o software livre fornece maior confiabilidade, independência tecnológica, não dependendo de um fornecedor somente, conseguindo construir softwares mais eficazes, com mais funcionalidade e características.

Estatisticamente, o Software livre está crescendo no Brasil?
Sim, crescendo exponencialmente. O Brasil é um dos pioneiros da migração para software livre, graças também ao investimento do governo federal. Quase todos os ministérios federais já migraram para software livre. Até mesmo algumas prefeituras e câmaras de vereadores que também já fizeram esse papel. As empresas privadas estão percebendo essa movimentação e também já estão utilizando o software livre no mercado.

Como e quando surgiu o Software livre?
A idéia do Software livre começou com Richard Stallman, em 1984, em resistência à construção de softwares proprietários e ao bloqueio de conhecimento. Com isso, criou o movimento do software livre, em que profissionais construíam e desenvolviam softwares para as pessoas e a fundação chamada Free Software Foundation, onde advogados criam mecanismos para que a construção do software livre se torne mais prática dento do mercado atual.

Entrevista 8: Internet, cultura e resistência
Entrevistada: Bárbara Szaniecki
Entrevistador: Gabriel Moura
Editora: Lívia Cunha

Mestre em Design pela PUC-RJ, Bárbara Szaniecki é uma designer conhecida nacional e internacionalmente, além de fazer parte do Conselho Editorial da Revista Global, uma produção virtual que visa o debate da globalização. Seus estudos buscam a relação entre cultura do espetáculo, ativismo e cartazes políticos.

Após sua palestra na noite de quinta-feira no FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação, Bárbara concedeu a seguinte entrevista ao Em Foco, confira.

Qual o poder do culture jamming como contraposto do espetáculo e como você observa seu alcance social em termos qualitativos?
O cartaz-camiseta, cartaz-muro, cartaz-manifestação capturam formas de representação de poder e carnavalizam, canibalizam, modificando as expressões propostas inicialmente e invertendo o significado. A resistência atua, de maneira geral, de forma bem-humorada, retira a pompa do poder e compõe um produto escrachado. E essa é a potência dela. Enquanto o poder é uma imposição, a resistência age por contágio e assim consegue ser notada socialmente.

A Internet vem se constituindo como um poderoso espaço de produção e troca intelectual. Nesse sentido, que relevância ela possui para os movimentos de resistência?
Ela é importante por representar várias vozes, nesse sentido se contrapõe aos meios tradicionais que representam poucas. E é esse caráter polifônico que pode potencializar a resistência. Além disso, muitas pessoas tomam conhecimento de ações por meio dela. A multiplicidade, a rede social criada, são dados muitos relevantes para esses movimentos.

Qual a possibilidade que você vê na intervenção digital influenciar a produção desses cartazes que você tem estudado?
Creio que a influência seja maior em relação à distribuição, visto que o alcance anteriormente era muito limitado. Além disso, a própria conformação física de um cartaz é problemática, na medida em que existe o limite de folhas, por exemplo. A Internet possibilita uma distribuição praticamente infinita dos mesmos, essa limitação física é, de certa forma, rompida.

Esteticamente, existe nesse novo meio a possibilidade de inovação, de criação de uma linguagem própria?
Sim, sem dúvidas existe. O computador facilita o processo de produção, as modificações em um projeto são feitas e desfeitas e isso é uma novidade interessante. Mas o que eu busquei destacar na palestra foi como as formas antigas de representação continuam presentes e são reproduzidas. A tradição e a inovação estão em conflito, mas também convivem e as novas produções são muito influenciadas por produções mais antigas.

Entrevista 9: Com vocês, Mr. Manson
Entrevistado: Wagner Martins
Entrevistador: Tamara Freire
Editoras: Ariani Parpaiola, Lívia Cunha e Luísa Buzin

Auditório lotado para ver o palestrante da sexta-feira, 27, no FOCO 2006 – IV Fórum de Comunicação. Senhoras e senhores, com vocês, o Mr. Manson! Wagner Martins, se preferirem, um economista carioca, que ainda na universidade resolveu montar o Cocadaboa, hoje, um dos blogs mais conhecidos e visitados no Brasil.

Depois da badalada palestra, Mr. Manson resolveu conceder um entrevista ao
Em Foco, confira.

Você tinha algum objetivo definido quando criou o Cocadaboa?
Eu queria que as pessoas lessem o que eu escrevia, só. E que o maior número possível de pessoas fizesse isso.

Uma grande curiosidade das pessoas é: de onde surgiu o nome Mr. Manson?
É o nome do meu pai, Charles Manson (risos). Falando sério, isso é coisa de moleque, de IRC (programa de bate-papo). Quando eu tinha 17 anos, era isso que eu ouvia, Marilyn Manson, então eu escolhi Mr. Manson, como a minha identificação no IRC. Acabei ficando conhecido por esse nome, e quando eu resolvi fazer outra coisa na internet, decidi mantê-lo.

Você afirma sentir prazer em sacanear as pessoas e que isso, de certa forma, é a motivação pra você continuar com o blog. Mas, se o Cocadaboa não tivesse alcançado todo esse sucesso, você acha que teria dado continuidade, apenas pelo prazer de fazer?
Na verdade, ver o que eu faço ser reconhecido como algo bacana, é que o me motiva. Então eu acho que, se eu não tivesse tido esse reconhecimento, se o blog não tivesse tido um retorno tão positivo, eu não teria continuado.

Nos conteúdos do seu blog, você acaba fazendo uma crítica à toda espetacularização da mídia, inclusive ao descuidos de certos jornalistas, que publicaram as notícias que você inventou, sem conferir a veracidade antes. Mas, o sucesso do seu blog é o resultado de uma espetacularização. Isso não seria uma auto-crítica?
Na verdade, eu me critico muito. Por exemplo, quando saiu a matéria na Época com os oito blogs mais influentes no Brasil e o Cocadaboa estava na lista, a minha primeira reação foi sacanear, por que o que seria influência pra eles? E também a própria fama do Cocadaboa é motivo de piada pro próprio site. Eu trato mal o público. Se alguém manda um e-mail elogiando, eu ponho no blog e sacaneio com essa pessoa.

Você diz que no Cocadaboa você usa o humor pra revestir um comentário crítico, mas você não acha que hoje as pessoas que repassam o conteúdo do seu blog nem sequer imaginam que pode haver um comentário crítico por trás disso?
Na verdade, tudo isso é uma desculpa né? Mas, a própria piada sempre surge de uma crítica, mesmo que não seja de propósito. E mesmo que a grande maioria não perceba a crítica, quem é leitor do Cocadaboa vai perceber. E isso pra mim é suficiente, porque a gente pode mudar o mundo aos pouquinhos.

Com a experiência que você teve no Cocadaboa, você pode dizer que apesar do fluxo crescente de informações, é possível ter um público fiel na internet?
É possível e na internet isso é muito mais fácil. Se você fizer alguma coisa legal no jornal, por exemplo, aquilo fica restrito ao público que compra. Na internet não, todo mundo pode ver. Se você lançar alguma coisa legal, da noite pro dia você pode ficar conhecido. Eu conheço gente que em um dia tinha 30 acessos e no outro tinha 20 mil. É claro que não se mantém esse número pra sempre, mas a pessoa continua com um público, que se identificou com o que ela fez. Eu por exemplo, tenho atualizado muito mais no site da Espalhe, do que no Cocadaboa, e o número de acessos do blog não cai. Eu não planejo acabar com o Cocadaboa, mas se por acaso eu quiser mudar o direcionamento do site, eu sei que muita gente vai deixar de ver, mas muita gente vai continuar.

Quando você critica alguma pessoa ou algum acontecimento, você não acaba fazendo publicidade gratuita?
Não. Por que independente de qualquer coisa tem gente que mesmo eu falando mal de alguém vai continuar gostando dela. Eu acho que não influencia. Você não tem formação em marketing e nem em publicidade, como que você entrou na Espalhe?Na verdade eu sou quase um publicitário, já estou até usando All Stars. Bom, quando eu entrei na Espalhe, já tinha uns quatro anos que ela tinha sido criada. Eles conheceram o meu trabalho no Cocadaboa, e mandaram um e-mail elogiando e dizendo que o que o fazia tinha a ver com o trabalho deles. Aí, eu conheci o site deles, e depois de uns seis meses, surgiu a oportunidade de fazer o Moblog pra Vivo. Eles me chamaram pra fazer um freelance de seis meses, e eu acabei ficando.

Então no seu caso, a falta de uma formação acadêmica não te prejudicou em nada?
Na verdade eu acho que beneficiou, por que eu tenho colegas na Espalhe que são formados em publicidade e eu acho legal essa multiplicidade de formações, quando você precisa criar coisas legais. Eu acho que a pessoa tem que se educar, independente de formação acadêmica, tem que ter idéias boas. A minha formação em economia, por exemplo, me deu isso, porque eu fiz em uma boa universidade, que abriu a minha cabeça e acabou com essa coisa de que economista tem que trabalhar em mercado financeiro.

Você trabalha com o viral no Cocadaboa e também na Espalhe. Há alguma possibilidade de você divulgar alguma ação na Espalhe no seu blog?
Eu evito. Eu gosto de separar por que o que eu faço no Cocadaboa, é de responsabilidade minha. Eu tenho carta branca pra fazer o que eu quiser. Na Espalhe não, eu respondo a outras pessoas e a uma série de regras, que determinam o que eu tenho ou o que eu não posso fazer. É até fácil pra mim, separar: o Cocadaboa é piada, a Espalhe é resultado.

8 Respostas para “Entrevistas”

  1. fabio malini disse

    Parabéns pela Katilaine!!!

    MAravilha a edição tb!!!

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